Você já ouviu falar em live cinema ou cinema ao vivo? Este novíssimo cinema produzido pelos VJ’s (visual-jockeys) já está sendo estudado pela Academia e tem revelado elementos que não só o legitimam como uma expressão cinematográfica autêntica, como também um instrumento para avaliarmos a própria história do cinema. Fazendo uma relação com o chamado primeiro cinema ou cinema dos primeiros tempos, não narrativo, podemos perceber que o tempo passa, novas tecnologias surgem, mas as criações humanas nem sempre se desenvolvem de forma linear como tanto desejavam os antigos positivistas.
Em primeiro lugar, faz-se necessário definir o que é live cinema ou cinema ao vivo. Esta expressão cinematográfica surge a partir do advento das novas tecnologias, principalmente da informática. Associados à figura dos DJ’s, os VJ’s se consolidaram a partir desta nova cultura da mixagem ao vivo, produzindo um tipo de imagem dançante, geralmente projetada em eventos musicais. É uma expressão artística que exige uma ação imediata, jogo com o acaso, musicalidade e interatividade com o ambiente. Essas formas de conceber, editar, mixar, conectar, projetar e provocar interatividade são justamente as características mais interessantes desta recente arte videográfica. A proposta é liberar não apenas o olhar do espectador para que ele acompanhe as telas da maneira que quiser, mas também a movimentação corporal de todos pelo espaço imersivo visual e sonoro.
Tanta liberdade de criação e exposição nos faz lembrar o chamado primeiro cinema, que vai de 1984 a 1908, não narrativo, que para muitos já foi tido como simples tentativas hesitantes, primitivas e desarticuladas de ser construir uma linguagem propriamente cinematográfica. Inicialmente uma atividade artesanal, o cinema apareceu misturado a outras formas de diversão popular, como feiras de atrações, circo, espetáculos de magia e de aberrações, ou integrados aos círculos científicos, como um das várias invenções que a virada do século apresentou. As primeiras imagens fotográficas em movimento surgiram, assim, num contexto totalmente diferente das salas escuras, limpas e comportadas em que os cinemas se transformariam depois. É um tempo em que a falta de controle institucional e também a ausência de regras rígidas, tanto formais quanto morais, dão aos primeiros cineastas total liberdade de criação.
Incorporados às atrações de feiras típicas do século XIX, tais filmes não eram, definitivamente, produtos acabados. As apresentações constavam de filmes curtos, compostos na sua maioria por apenas um plano. Quando um filme incluía muitos planos, estes eram comercializados em rolos separados e ficava a critério do exibidor a escolha e a ordem dos rolos que ele julgasse mais interessantes ou adequados para o seu público. Em muitos casos esses filmes eram recriados pelos exibidores a cada vez que eram exibidos. Era um cinema completamente anárquico. E nem um pouco sentimental ou moralista. Havia uma produção considerável de filmes eróticos e as comédias, o gênero mais comum e popular entre os filmes de ficção, envolviam sempre algum tipo de malvadeza.
Dada a diversidade do público, a pluralidade de suas respostas e as variedades das formas de exibição neste primeiro cinema, os filmes da época constituíam, na grande maioria dos casos, formas abertas de relato, já que podiam ser entendidos de múltiplas maneiras. O negócio só começou a mudar a partir de 1908, a partir de um movimento de controle moral sobre os filmes. Deu-se aí o início do seu processo de domesticação. Com o aumento do público a partir de 1906, houve um movimento de autocensura e institucionalização do cinema, tendo em vista incorporar as classes médias que, dotadas de maior poder aquisitivo, garantiriam a sobrevivência econômica da indústria do cinema. Daí o papel crucial que adquire D. W. Griffith ao criar a linguagem clássica narrativa para fazer do cinema algo cada vez mais próximo das tradições burguesas de representação como os romances e peças de teatro. E ainda, se possível, associar ao cinema uma retórica moral e um objetivo educativo e edificante.
Diante de tudo isso, é como se a história do cinema se transformasse numa Ouroboros, aquela serpente mítica que devora a própria cauda e que contém as ideias de movimento, continuidade, auto fecundação e, consequentemente, eterno retorno. O primeiro cinema, “cinema de espetáculo”, aberto e sensorial, não deixa nada a desejar em termos de criação para os filmes hoje produzidos pelos VJ’s, fruto das mais novíssimas tecnologias da informática. Recriados pelos exibidores a cada vez que eram ou são exibidos, produto inédito a cada exibição, possuem em comum a mesma margem de autonomia na leitura efetuada pelos espectadores que tornam inúteis quaisquer tentativas de controlar a mensagem dentro de limites mais definidos.
Veja abaixo um exemplo de cada cinema: “Momus” do badaladíssimo VJ Spooky e “Le squelette joyeux” dos irmãos Lumière.
Sugestão de leitura de livros que falam sobre os dois tipos de cinema:
COSTA, Flávia Cesarino. O primeiro cinema – Espetáculo, narração e domesticação. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005.
MACIEL, Kátia (org.). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2009.